Sartre, Camus e a Cyd Charisse
Luis Fernando Verissimo
Comemora-se o centenário de nascimento de Jean-Paul Sartre, e na França o seu relativo esquecimento, nos últimos anos esta sendo compensado por cadernos inteiros de jornais dedicados à sua obra e ao seu legado intelectual. Um dos temas repetidamente focados nessas retrospectivas é o da relação de Sartre com Albert Camus, seu companheiro de resistência durante a ocupação nazista e em outros bons combates, que azedou com o tempo. Os dois se afastaram e criaram-se duas correntes na esquerda intelectual da época, sartreanos e camusianos, numa divisão quase tão radical quanto a que separava stalinistas e trotskistas. Agravada, no caso, pela posição algo ambígua do argelino Camus na questão da independência da Argélia. Sartre engajava-se em todas as causas libertárias ou apenas notórias do momento, da rebelião antiburguesa de jovens burgueses parisienses à revolta dos deserdados da Terra de Franz Fanon – outro nome caído em desuso – enquanto Camus racionava seu engajamento, o que era uma maneira de zelar pela sua autonomia intelectual. Quando veio o desencanto geral com o dogmatismo stalinista, Camus foi um dos que não precisaram se desdizer. Mas tanto Sartre quanto Camus, longe dos seus desencontros políticos, simbolizaram o engajamento moral possível na ausência de qualquer imperativo teológico ou ideológico. Se, na famosa sentença dostoievskiana, tudo é permitido num mundo sem deus, a escolha da virtude da solidariedade e da busca da justiça, sem recompensa prevista neste mundo ou no outro, é o mais perto que jamais chegaremos da santidade. Ou o mais longe que chegamos do bugio. Sartre e Camus continuaram até o fim companheiros na resistência, desta vez ao niilismo e ao cinismo e ao aviltamento do ser humano.
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É curioso, lembrando Sartre e Camus e a escolha que precisava ser feita entre os dois, lembrar outras escolhas antes obrigatórias que perderam o sentido com o tempo. Por exemplo: quem você preferia, Gene Kelly ou Fred Astaire? Para os recém-nascidos: Gene Kelly e Fred Astaire eram bailarinos em Hollywood no tempo em que “musical” era um gênero de cinema, em vez de uma raridade, como hoje. Seus estilos eram completamente diferentes. Você não estava apenas revelando uma simpatia gratuita quando se decidia por um dos dois, estava fazendo uma declaração de princípios, quase uma afirmação filosófica. Kelly era mais atlético e expansivo, Astaire mais leve e sofisticado. O estilo de Kelly transmitia energia, era mais “americano”, enquanto Astaire fazia tudo aparentemente sem esforço, com um certo desprendimento aristocrático. Como disseram certa vez do Buster Keaton em relação ao Charlie Chaplin, Fred Astaire era o Gene Kelly para adultos. Mas Kelly era o mais conscientemente “artístico” e pretencioso dos dois, o que mais explorou as combinações possíveis da dinâmica da dança com a técnica revolucionária do cinema. Astaire também fez os seus truques mas preferiu limitar suas experiências a como um sensível “pas-de-deux” com um cabide. Mas os dois saíram-se igualmente bem no que tiveram em comum, seus encontros com as longas pernas da Cyd Charisse. O que fazer diante das longas pernas de Cyd Charisse era a questão definidora na vida de um homem do século 20. Eles não nos envergonharam.
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Os dois eram herdeiros de uma grande tradição de dançarinos populares americanos, na maioria negros que por causa da cor não tiveram carreiras parecidas com as deles. Kelly e Astaire se transformaram em heróis românticos no cinema, embora Astaire tivesse tudo, menos cara de galã. Tanto Sartre quanto Camus, dizem, faziam muito sucesso entre as mulheres, embora Sartre fosse ainda mais feio do que Fred Astaire. Questão puramente hipotética, agora que todos já morreram e tudo ficou hipotético: qual dos dois, Sartre ou Camus, a Cyd Charisse preferiria?
Domingo, 20 de março de 2005.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.